Visitas desde el 28 de diciembre de 2018

Comunismo e a ‘questão negra’

Número 13, año 2019



Por Matheus Cardoso da Silva [1]


Antes de tudo é preciso definir o sentido de Pan-africanismo e como o conceito compõe um movimento político internacional com um projeto constituído visando a liberação das colônias negras tanto na África quanto nas Américas.

Os termos "pan-africano" e "pan-africanismo" não surgem antes de finais do século 19 e começo do século 20. Como projeto político, no entanto, um projeto coletivo de luta contra o racismo já pode ser observado de maneira embrionária em movimentos abolicionistas na Europa e nos EUA, tais quais a British-Based Sons of Africa, liderados por ex-escravos como Olaudah Equiano e Ottobah Cugoano.

O Pan-africanismo toma a força de um movimento mais ou menos consistente então a partir da luta de ex-escravos tais quais nas lutas dos afrodescendentes nos EUA no contexto do pós-guerra civil, nas lutas pela ampliação da cidadania dos negros libertos da escravidão. A partir de uma ideia do retorno à África (nesse momento ainda uma ideia de retorno idealizada) se liga aos embriões dos movimentos anticoloniais nacionais em gestação.

É importante notar ainda as diferenças entre o movimento Pan-africano dirigido pelo ativista jamaicano Marcus Garvey ou pelo historiador e sociólogo estadunidense W.E.B. Du Bois, que privilegiavam os debates étnicos em detrimento a prevalência do debate de classes dos comunistas. Por isso, é importante destacar a diferença entre aquele movimento Pan- africano anterior e o movimento Pan-africano financiado pelo Comintern a partir da década de 1920, tendo nomes como do jornalista, nascido em Trinidad, George Padmore, ligado simultaneamente ao movimento Pan-Africano internacional e a Internacional Comunista, como referências.

Em grande medida, é na esteira das redes construídas pelo Movimento Pan-Africano que irá se estabelecer, a partir da década de 1920, as relações entre o movimento comunista internacional e a “questão negra”. A “questão negra” foi assim descrita a partir dos debates travados nos EUA em torno da emancipação da população afrodescendente local quanto ao racismo. O termo foi cooptado pelo Comintern para fazer uma referência mais ampla - não apenas sobre as lutas de emancipação dos negros nos EUA, que principiaram esse debate, tanto quanto na África do Sul, à opressão colonial na África e às diásporas africanas nos grandes centros europeus, como na Grã-Bretanha e na França.

 Quanto a importância da Revolução de Outubro para à África, Hakim Adi (2013) lembra que ela foi o acontecimento político mais importante do século XX, mostrando, pela primeira vez, a capacidade dos trabalhadores em se auto-organizar para questionar o poder político vigente em direção a uma mudança drástica de sistema político. Seu impacto internacional, com isso, foi o de motivar as populações subjugadas pela ordem liberal capitalista, que se impunha nas colônias através do imperialismo. Adi lembra ainda que, no âmbito das Relações Internacionais, a Revolução Russa expôs a relação entre o imperialismo, o colonialismo e a guerra, evidenciando os tratados secretos entre as potências europeias para a manutenção de suas colônias e a subjugação dos povos nativos.

Entre o movimento internacional de combate ao racismo e de emancipação dos negros, o impacto inicial maior da Revolução foi entre as seções mais radicais dos movimentos de emancipação dos Afro-Americanos, especialmente na African Blood Bloodhood. Um outro impacto internacional foi entre aqueles que haviam combatido na Primeira Guerra Mundial, como Lamine Sanghor, na França, que viria a tornar-se proeminente líder negro pela emancipação dos povos afro-descentes e dos africanos subjugados pelo colonialismo. Outro aspecto extremamente positivo dado pela Revolução Russa foi a emancipação das colônias russas. Pela primeira vez foi possível ver uma nação europeia, com tradição imperial, libertar- se das pretensões coloniais em favor dos povos oprimidos. Fator que não apenas reforçou a notoriedade dos ideais de 1917, mas apontou o socialismo como um caminho, inclusive, de libertação dos povos oprimidos pelo imperialismo. O que impressionou muitos expoentes dos movimentos antirracista e anticolonial nos EUA, como do poeta Langston Hughes e de W.E.B. Du Bois, ambos visitando a URSS depois da Revolução e ali se convertendo ao socialismo.

Para os comunistas, a “questão negra” tomou, com isso, aspectos de uma política necessariamente transnacional: ou seja, se a luta contra o racismo e a opressão colonial atingia tanto os afrodescendentes nos EUA e na Inglaterra, quanto as populações africanas, ela os unia em uma luta comum que não reconhecia as barreiras geográficas dos Estados. Política que permaneceu até o VII Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1935.

Lênin iniciou a discussão sobre a “questão negra” nos  EUA no  II Congresso da Internacional Comunista, em 1920. (Lênin 1920) Aquele foi um primeiro esforço em construir um debate global acerca da situação das populações negras oprimidas pelo julgo imperialista e capitalista, aproximando-o de suas reflexões teóricas, nos textos: 1) “Sobre os direitos das nações a autodeterminação” (1914), 2) “Imperialismo, fase superior do capitalismo” (1916) y 3) “Relatório da Comissão sobre as questões nacionais e coloniais” (1920)

Lênin questionava o papel dos partidos comunistas locais na organização operária para construir o apoio às lutas de liberação contra o inimigo comum de todos: o imperialismo. Segundo sua tese sobre o imperialismo, tanto quanto a luta contra o capitalismo, a luta anticolonial não podia restringir-se apenas aos povos europeus ou nos EUA, mas deveria ser global, especialmente onde os grilhões do imperialismo estivessem mais fracos, permitindo assim o avanço concomitante do socialismo. Com isso, a questão da opressão dos negros nos EUA, ao mesmo tempo que se tornou paralela no embate da luta de classes – haja visto que os negros representavam parcela importante do contingente operário local – se tornou um sucedâneo internacional da luta contra todas as formas de opressão, entre elas o colonialismo.

É sintomática, nesse sentido ainda, a fala do famoso jornalista John Reed, na abertura do II Congresso da Internacional Comunista, realizado no dia 25 de Julho de 1920, em Moscou, que alertou os soviéticos para a situação de opressão dos negros nos EUA (Reed 1977/1920).

Para Lênin, segundo as resoluções do II Congresso da Internacional Comunista de 1920, todos os partidos comunistas deveriam expor de maneira clara, não apenas sua orientação anti- imperialista, como criticar abertamente o colonialismo dos governos locais e a defesa da autodeterminação dos povos, garantindo assim sua autonomia nacional (Lênin 1977).

Nesse momento, o Comintern tentava organizar um congresso mundial para debater a questão negra e buscava estabelecer uma política coerente – e internacional - que unisse todos os comunistas em uma direção unificada. Na França e na Inglaterra, além da pouca idade, os Partidos Comunistas (tanto o CPGB quanto o PCF, fundados em 1920) não tinham bases suficientes para questionar publicamente o imperialismo. O que explicava ao mesmo tempo, a influência do chauvinismo e do nacionalismo em certos setores da esquerda britânica e francesa, alguns até indiferentes à opressão colonial ou contrários a libertação das colônias na África, Caribe e Ásia.

A título de exemplo, o Parti Communiste Français era melhor organizado que o Communist Party of Great Britain, haja visto a tentativa de organizar uma União Inter-Colonial, que  tecia  ligações  entre  militantes  nacionais  na África,  Caribe  e  Indochina,  em  prol  da construção de um movimento anticolonial unificado, construído por dentro das colônias francesas, constituindo, inclusive, seu próprio comitê de estudos da questão colonial. Enviou até delegados das colônias, como o Vietnamita Ho Chi Minh, ao V Congresso da Internacional Comunista, realizado em Moscou, entre junho e julho de 1924.

É muito interessante lembrar, por exemplo, a influência dos debates sobre a situação dos negros nos EUA para Ho Chi Minh, que viveu no Harlem, em Nova York, no final da década de 1910, quando participou ativamente de reuniões na Marcus Garvey´s Universal Negro Improvement Trust, acompanhando de perto o debate sobre a opressão dos negros e o racismo nos EUA.



Referencias

Lênin, Vladimir I. 1977. Obras Escolhidas, Tomo 2. Transcrição de Fernando A. S. Araújo. Lisboa; Moscovo: Editorial "Avante!"; Edições Progresso. Disponível em  https://www.marxists.org/portugues/lenin/escolhidas/index6.htm

Reed, John. 1977. “The Negro Question in America. Speech at the 2nd World Congress of the Communist International”. Moscow, July 20, 1920. Second Congress of the Communist International. Minutes of the Proceedings. London: New Park Publications. Disponível em https://www.marxists.org/history/usa/parties/cpusa/1920/07/0725-reed- negroquestion.pdf





_____________
[1] Editor Jefe en Revista nuestrAmérica, ISSN 0719-3092. Doctor en Historia Social; Grupo de Pesquisa em História Intelectual; Departamento de História; Universidade de São Paulo; Brasil.




Cite este post:
Cardoso da Silva, Matheus.  2019. Comunismo e a ‘questão negra’. Blog nuestrAmérica, 11 de enero, sección Columnas. Acceso [día de mes de año].   https://rvnuestramerica.blogspot.com/2019/01/comunismo-e-questao-negra.html





Este post está publicado bajo una licencia Creative Commons BY-NC-SA 4.0 [Reconocimiento-No comercial-Compartir igual- Internacional]. Queda estrictamente prohibido su uso comercial.

Comentarios

Entradas populares